R.Magnago critical thinking
10 de outubro de 2025 5 min de leitura

Suas avaliações no Google são ESG na prática

Rodrigo Magnago

Membro do Fast Company Impact Council • CEO na RMagnago

Fast Company Impact Council

Publicação na Revista Fast Company

Este artigo foi originalmente publicado na coluna de Rodrigo Magnago na revista Fast Company.

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Publicação Original em Inglês

Disponível no texto original ou traduzido para o português

As fissuras nas teorias econômicas pós-modernas estão visíveis. Elas transbordaram para a política, com governos cortando orçamentos em todo o mundo.

A faísca veio de Richard Thaler (Nudge) e Daniel Kahneman (Rápido e Devagar), mas as raízes são mais profundas. Em 1978, Herbert Simon conquistou o primeiro Prêmio Nobel de economia comportamental. Mais tarde, Thaler trouxe a disciplina ao debate público com sua série de artigos sobre “anomalias” no Journal of Economic Perspectives entre 1987 e 1990.

A mensagem era inequívoca: as pessoas agem com base em seus ambientes. A psicologia já havia demonstrado isso na prática clínica; a economia eventualmente seguiu o mesmo caminho.

Com isso, o homo economicus — o ator hiper-racional da modernidade industrial — morreu. E com ele foi-se a cartilha da meritocracia estrita, do determinismo técnico e da racionalidade fria.

Em seu lugar, ascenderam conceitos como cultura, instituições, propósito, RH inclusivo, igualdade de gênero, cotas e linguagem — dinâmicas sociais fundamentadas em insights comportamentais.

À medida que a economia de serviços se expandiu, exigindo mais competências interpessoais do que habilidades industriais duras, a economia comportamental se espalhou. Mas esse campo cometeu uma omissão grave: nunca convidou a contabilidade para a conversa.

O Ponto Cego da Contabilidade

As estruturas contábeis de órgãos como FAF e IFRS ainda são projetadas para a modernidade industrial: apenas fluxos de caixa imediatos e positivos contam como valor. Todo o restante é classificado como custo.

Isso significa que a forma como uma empresa trata seus fornecedores, colaboradores, comunidades e o meio ambiente é lançada como perda contábil, desvinculada da criação de valor. Até mesmo iniciativas de ESG acabam sendo paradoxalmente penalizadas pelos próprios sistemas que dizem incentivá-las.

Considere um caso prático: uma empresa com 10.000 avaliações no Google com média de 4,6 estrelas.

De uma perspectiva estatística, essa base de dados tem peso considerável. É grande o suficiente para se enquadrar na lei dos grandes números — sendo válida, representativa e estatisticamente relevante.

Trata-se de uma amostra de resposta voluntária com significado real, combinando profundidade quantitativa e qualitativa. Mais importante ainda: sugere correlação direta com causalidade: funcionários, fornecedores e clientes são tratados com respeito e profissionalismo.

Esse número não é apenas uma pontuação de reputação; é um indicador direto de desempenho em ESG e de geração de valor no longo prazo. Sinaliza que a liderança é competente e que a empresa tem probabilidade de sustentar fluxos de caixa futuros, impactando diretamente o próprio valuation.

No entanto, nada disso é capturado no balanço patrimonial.

Do Comportamentalismo ao Hipermodernismo

Estamos entrando no que se pode chamar de hipermodernismo: uma união necessária entre insights comportamentais e rigor racionalista. Mas esse diálogo mal começou.

Observe as práticas de RH ou o atual "people analytics". Algumas empresas ainda medem tempo de tela como indicador de produtividade. Poucas integram feedbacks de stakeholders sobre o bem-estar dos funcionários, a qualidade de vida familiar ou o valor real das entregas.

Enquanto isso, a tecnologia já solucionou os problemas de escala. Modelos de linguagem de grande porte (LLMs), como o ChatGPT, processam dados de formas muito mais complexas do que as métricas corporativas. Uma simples frase de 10 palavras é representada por cerca de 257.000 parâmetros, calculados em centésimos de segundo. O treinamento envolve milhões de sentenças em bilhões de parâmetros.

Se os sistemas de IA podem processar essa complexidade, as organizações certamente podem desenhar modelos com 100 a 200 parâmetros para identificar talentos, monitorar bem-estar e mensurar desempenho real.

Podem inclusive compartilhar esses benchmarks entre setores industriais, assim como a comunidade científica compartilha bases de dados abertas.

Com web scraping, mineração via APIs, análise de sentimentos, extração de metadados e rastreamento de séries temporais, as organizações podem mensurar comportamentos e relacionamentos com uma precisão inacessível às gerações anteriores.

Mensurar o que Realmente Gera Valor

Esta é a grande oportunidade: ir além dos modelos modernistas rígidos construídos para excluir assimetrias do balanço patrimonial e, em vez disso, trazer essas assimetrias para o centro da análise por meio de modelos multiparamétricos.

Se realmente desejamos atribuir valor à diversidade, à inclusão e às dinâmicas sociais que geram riqueza, precisamos mensurar esses efeitos, e não descartá-los como simples “despesas”. Isso exige que a contabilidade evolua e que pensadores laureados com o Nobel ajudem a reescrever as regras.

Esse debate não é isolado. O Impact-Weighted Accounts Project de Harvard busca incorporar externalidades sociais e ambientais diretamente às demonstrações financeiras, enquanto frameworks de Sustentabilidade Baseada no Contexto defendem que a performance seja avaliada frente a limiares ecológicos e sociais.

Tudo aponta para a mesma conclusão: a contabilidade precisa evoluir para tratar cultura, relacionamentos e impacto não como custos, mas como motores fundamentais de criação de valor no longo prazo.

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